quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Marighella: uma leitura

 Por Dalmo Oliveira*


Fonte: Wikipedia


Antes de iniciar essa escrita quero advertir que não se trata de um artigo convencional de crítica cinematográfica, mesmo porque, esse filme já foi exaustivamente analisado por críticos gabaritados da Sétima Arte. Não é também, tão pouco, um ensaio de Sociologia Política. 


“Eu não preciso de nenhum partido para ser comunista!”. A frase atribuída a Carlos Marighella, no momento em que recebe a informação de que a direção do PCB (Partido Comunista Brasileiro) irá expulsá-lo, sintetiza muito a postura libertária desse que foi um dos idealizadores e, talvez, a mais importante liderança da Ação Libertadora Nacional (ALN). 


Nascido na Bahia em 1911, Marighella é uma figura da qual poderemos dizer, tranquilamente, que se tratava de um rebelde incorrigível. Em 1932 foi preso pela primeira vez, após publicar um poema que criticava o então governador (interventor) da Bahia, Juracy Magalhães. Esse sobrenome é famoso lá nas terras de Gal e Gil.


Em 1936 o “Preto” já tinha sido preso e torturado por “subversão”. Em 1939 foi novamente preso amargando o xilindró até 1945, quando uma primeira a anistia política (já na Era Vargas) foi concedida num primeiro processo de redemocratização. Aqui daremos uma pausa para observar que nosso país deve ser campeão mundial em processos de “redemocratização”, provavelmente porque nunca fomos uma República de verdade, como uma França, uma Inglaterra ou uma Itália... É aquela velha sensação dum cachorro tentando pegar o próprio rabo. Vocês sabem do que tou falando!


Logo depois, Carlos Marighella se torna deputado federal pelo PCB. E é esse o fato que mais me fustigou, no filme de Wagner Moura. A película poderia ter gasto alguns minutos contado essa trajetória parlamentar, da desenvoltura do deputado comunista num Congresso em pleno 1º reich do gaúcho Vargas. 


Entre 1952 e 1953, Marighella ganhou uma espécie de “estágio” no Comunismo Real, tendo sido convidado pelo Comité Central do Partido Comunista da China para aquilo que hoje chamamos de “imersão” no país de Mao.


Acontece que, em determinado momento da projeção, o espectador poderá ter a leve impressão de que o longa, cujas filmagens foram iniciadas em 2015, está mais para um filme policialesco sobre a Operação Bandeirantes (Oban) ou sobre as peripécias do vibrador e cruel delegado “Lúcio” (Bruno Gagliasso), sócio-fundador do famigerado Departamento de Ordem Social e Política (DOPS), que, segundo  Wikipédia, foi criado em 30 de dezembro de 1924, sendo um órgão do Governo brasileiro utilizado durante o período do “Estado Novo”  e mais tarde pela nossa gloriosa  “Ditabranda” Militar, pela reclassificação da Folha de S. Paulo.


Nesse ponto, Moura foi bem democrático ao distribuir o protagonismo da história  entre outros personagens, como “Amir/Branco” (em mais uma atuação magistral do paraibano Luiz Carlos Vasconcelos). O filme ganha potência ainda com as presenças de Herson Capri (no papel do jornalista Jorge Salles) e do pastor Henrique Vieira, que é ator de formação e interpreta o padre colaborador da ALN.


As ideias e as armas


“Marighella” traz também uma discussão super-atual no Brasil: as guerras com armas convencionais e bala e aquelas que ocorrem na disputa das ideias, que hoje os novos analistas de discursos estão chamando de “narrativas”.


Em determinado momento histórico o grupo de guerrilheiros liderados por Marighella percebe que a luta armada seria inócua contra as forças golpistas que solaparam a democracia brasileira (olhe ela aí de novo!!) por mais de três décadas. O momento emblemático do filme, nesse aspecto, ocorre quando, numa ação inovadora e genial as organizações anti-Ditadura realizam uma intervenção de transmissão radiofônica pirata, invadindo as ondas da principal emissora paulistana para a leitura do  famoso “Manifesto Ao Povo Brasileiro”, cuja gravação original teria sido feita pelo estudante Gilberto Luciano Belloque. 


Seria algo parecido com aquela cena antológica da filme “V de Vingança” (Inglaterra, 2006), quando o protagonista realiza uma série de ataques hackers sistemáticos, e que acabou acontecendo fora das telas, quando o grupo ativista Anonymous organizou diversos ataques semelhantes.


O que Marighella, o filme, acaba mostrando é que nenhuma resistência revolucionária se sustenta sem antes atuar no convencimento da Esfera Pública. Comunicação está no miolo da disputa ideológica. A elaboração do discurso e sua difusão eficaz. Evidentemente, a Imprensa possuia, há até nem pouco tempo atrás, uma posição privilegiada para sucesso ou fracasso da “propaganda” das ideias.


O papel da Ancine (Agência Nacional do Cinema) no boicote à estreia de Marighella me parece semelhante ao da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no efetivo início da imunização da população brasileira contra o Coronavirus no ano passado, evidentemente, guardadas a devidas competências, ingerências e negligências. Há de se lastimar, no entanto, que, no caso das vacinas, as consequências são as milhares de mortes de brasileiros que poderiam ter sido evitadas. 

Já tendo sido visto, até a semana passada, por cerca de 250 mil espectadores e arrecadado em torno de R$ 5 milhões nas bilheterias, “Marighella” se consolida como o maior sucesso do cinema brasileiro desses dois anos de pandemia. Aqui em Campina Grande o filme ficou em cartaz apenas na derradeira sessão diária numa rede de cinemas de um shopping da cidade… por incríveis duas semanas.


A partir do dia 04 de dezembro ele entra no menu do streaming da Globoplay. Então, ajeite o sofá, compre milho orgânico pra pipoca, bote a cerveja ou o vinho pra gelar e prepare-se para assistir um pequeno recorte sobre a vida de um dos últimos heróis do Brasil.  


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*Dalmo Oliveira é jornalista e mestre em Comunicação pela UFPE.