domingo, 13 de março de 2022

Putin vai ser o próximo Nicolau

 *por Dalmo Oliveira 



A guerra não faz sentido. Ainda mais agora, num mundo “pós-moderno”, na pré-estreia do Meta-Mundo. Nunca fez sentido! É uma distorção de humanidade. Mesmo antes de Caim. A guerra é, na verdade, o fracasso da comunicação.

Esse novo conflito Rússia-Ucrânia, além de colocar medo no restante da humanidade, só serve para provar como nós evoluímos sem pressa. É simplesmente vexatório e humilhante presenciar, mais uma vez, pela TV, as cenas de bombardeios, de tanques em marcha, fuzileiros, gente inocente sendo pisoteada, crianças e velhos expostos, evacuação em massa. 



É triste olhar a guerra. E mesmo sem ser atingido diretamente, saber de suas aberrantes consequências. E ouvir as desculpas esfarrapados, de lado a lado. Os motivos continuam sendo os mesmos: nacionalismo radical, xenofobia, expansão de impérios, exploração das riquezas ambientais, reciclagem do capitalismo.


Eventualmente com molho forte de fundamentalismo religioso, orgulho de raças e interesses econômicos alheios outros. Os líderes beligerantes nem querem saber do famoso “efeito borboleta”. Nesse caso da invasão russa sobre uma desnorteada Ucrânia (pobre povo Ucraniano, ninguém merece os líderes que tiveram desde a Segunda Guerra) fica evidente o despropósito e a discrepância de forças armadas. É uma covardia sem tamanho!!


Covarde. Seria um bom adjetivo agora para o lunático Putin. Uma figura perigosa que saiu dos esgotos da KGB para se tornar uma espécie de “Czar fora de época”. 


Os russos, aliás, como seus contraparte ex-aliados estadunidenses, adoram uma encrenca. Vale lembrar da “Guerra de Inverno”, iniciada em novembro de 1939, quando os soviéticos invadiram a Finlândia numa disputa que teve origem devido a quebra do Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado por alemães e soviéticos prometendo não-agressão mútua que incluía a Finlândia na área de influência da finada URSS.


Só quem acha que a “Guerra Fria” acabou é quem não entende realmente o que está por trás do avanço constante da tecnologia bélica e do absurdo acúmulo de armas letais de destruição em massa que russos e estadunidenses cultivam desde as explosões em Hiroshima e Nagasaki.

Ou senão, me explique porque os dois gigantes briguentos estão sentados sobre quase 12 mil dessas armas, se bastariam mil delas para defenestrar toda a vida sobre a face da Terra…

Para entender a nova guerra eu fui assistir dois filmes essa semana: o documentário do premiado diretor Oliver Stone, “Ucrânia em chamas”, lançado em 2016, que mostra o golpe de Estado ocorrido em 2014, que derrubou Viktor Yanukovych, presidente eleito democraticamente. 

A história que Stone narra é didática para nos fazer entender como, a partir dos anos 90, o governo estadunidense promove as chamadas “guerras híbridas” e começa a exportar as táticas de lawfare para desestabilizar governos não alinhados com Washington, trocando a velha CIA por ONGs e empresas de mídia, bancadas para divulgar as chamadas “narrativas convenientes”.

Já “Os Últimos Czares’ é um docudrama de seis episódios que estreou em julho de 2019. A série se debruça sobre o reinado de Nicolau II, o último imperador russo da Dinastia Romanov, assassinado, com quase toda a família imperial, pelos bolcheviques em 1918.

Enquanto o filme de Stone descortina a guerra subterrânea permanente dos EUA, a minissérie da Netflix mostra como o Czar preferiu apostar sua vida num modelo de sociedade retrógrado e ultrapassado, negando-se a favorecer o surgimento de um modelo de governança híbrido, com monarquia e parlamentarismo, a exemplo do que ocorreu na Inglaterra e noutros cantos da Europa mais liberal. 

E como disse o escritor e humorista norte-americano Samuel Langhorne Clemens (1835-1910), mais conhecido como Mark Twain, “Deus criou a guerra para que os americanos aprendessem a Geografia” ou ainda a genial “A História não se repete, mas, às vezes, rima”.

Nesse momento, o senhores da guerra estão rimando História com hipocrisia e ganância. E que Deus tenha piedade das almas das vítimas indefesas desses “poetas” do caos. 

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*Dalmo  Oliveira é jornalista, com mestrado em análise do discurso científico.

Artigo originalmente escrito em 08 de março de 2022, publicado parcialmente em A União em 11/03/22.