por DALMO OLIVEIRA*
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| O primeiro crachá a gente nunca esquece |
06 de Dezembro de 1994. Essa data mudou definitivamente minha trajetória de vida e profissional, quando minha carteira de trabalho foi assinada pelo chefe-geral Jorge Ribask à época responsável pela Embrapa Semiárido, em Petrolina (PE). Nesses 28 anos de Serviço Público à cidadania brasileira, uma das coisas mais bacanas que pude usufruir foi a possibilidade de trabalhar em quatro territórios nordestinos: na região do Vale do São Francisco, primeiramente, no Recôncavo Baiano, em terras alagoanas, até o início de 2021, quando pude participar do esforço de implantação da Embrapa Alimentos e Territórios, e no topo da Borborema, na minha querida Campina Grande, na Embrapa Algodão fundada há 47 anos.
Por mais ou menos tempo vivendo nesses lugares, desenvolvi um olhar diferenciado sobre o Nordeste. À beira do São Francisco aprendi o valor do sertão irrigado e das riquezas possíveis que as terras áridas podem oferecer se cultivadas com empenho e uso das ciências agronômicas. Em Cruz das Almas (BA) vivi a possibilidade do encontro com pessoas valorosas não-nordestinas, tecendo ricas amizades com mineiros, paulistas e cariocas.
Foi na Bahia também (de 1995 a 2002) que pude fazer uma grande imersão ancestral para dentro da minha africanidade. Aonde pude cultivar com orgulho e liberdade meu próprio “eu negro” vivenciando de perto a influência de África no Brasil, na culinária, na religiosidade e na alegria contagiante desse povo.
Filho e neto de agricultores de base familiar, até 94 eu era apenas um jovem urbanóide vindo de uma cidade interiorana de médio porte como Guarabira. Foi a partir da Embrapa que eu comecei a prestar atenção na importância da agricultura. Mandioca, batata, milho, favas, banana, uva, melão, melancia, citros, abacaxi, algodão, sisal, amendoim, gergelim, umbu, seriguela. A maravilhosa diversidade alimentar do Brasil.
No contato com os diversos territórios, vivi histórias interessantes. Lembro vivamente, por exemplo, da visita a uma aldeia Pataxó no sul baiano, quando tomamos banho no riacho da comunidade aprendendo a sabedoria milenar do pajé local. Ou do dia que conhecemos um roçado de mandioca aonde a liderança do lugar era uma mulher rezadeira. Ela nos contou que a comunidade vivia tendo problemas com o ataque de cobras então, um dia, ela reuniu o povo e juntos fizeram uma sessão de rezas no roçado e as serpentes, daí em diante, desapareceram.
Noutra ocasião, eu fui à Curitiba para assessorar a comunicação de um evento científico de fruticultura. Numa das noites, sai com alguns colegas da Embrapa para jantar numa churrascaria da cidade. Eu havia comprado no comércio do centro um pesado casaco, daqueles pra aquentar um frio siberiano. Para completar o look exótico, pus na cabeça uma bela toca rastafári. Jantamos divinamente com a legítima picanha argentina (ou uruguaia, não tenho mais certeza) e um vinho seco de procedência. Na hora de pagar a conta, o maitre se dirigiu à nossa mesa e com muita galhardia e deferimento começou a me perguntar se eu havia ficado satisfeito, se a comida tava boa, se desejava mais alguma coisa. Como eu era o único negro à mesa, quando ele se afastou eu comentei com meus colegas: “será que ele está imaginando que eu sou alguma autoridade africana e que vocês estão me paparicando??”. Caímos todos numa daquelas gargalhadas coletivas.
Com Davi na corcunda visitando a Embrapa em
Cruz das Almas (BA) | Foto: Fabiana Veloso
Tem também os momentos com celebridades, como daquela vez em Salvador em que ficamos hospedados no mesmo hotel com os caras do Paralamas do Sucesso (quando Herbert ainda andava) ou na Serra da Meruoca, no Ceará, compartilhando a hospedagem com Belchior.
Ser jornalista da Embrapa pode te dar oportunidade também de praticar uma assessoria de imprensa diferenciada. Com o passar do tempo, fui aprendendo que divulgação de Ciência & Tecnologia é uma tarefa um pouco mais complexa (e prazerosa) do que simplesmente trabalhar com assessoria de comunicação, pura e simplesmente. E foi assim que decidi aprofundar essa experiência no Mestrado em Comunicação na UFPE.
Decidi transformar minha dissertação (produzida entre 2005 e 2007) em livro, publicado originalmente em 2013. Agora disponibilizo no formato e-book: https://www.ideiaeditora.com.br/produto/anotacoes-sobre-discursos-no-relise-difusionista-linguagem-cientifica-e-tecnologica-no-jornalismo/ que pode ser baixado gratuitamente.
O que eu buscava esclarecer (talvez para mim mesmo) era a seguinte pergunta: “Quando é que o trabalho dos jornalistas que fazem assessoria de imprensa para órgãos de ciência & tecnologia (C&T) deixa de ser exatamente jornalismo?” Atualmente eu mudaria a ordem dessa questão e indagaria, numa nova investigação acadêmica, o seguinte: “Quando é que o assessor de imprensa faz jornalismo atuando numa assessoria de comunicação de uma instituição reconhecida mundialmente como a Embrapa?”.
Em quase meio século, a comunicação da Embrapa saiu do mero difusionismo, desenvolvido principalmente por seus agrônomos, para um modelo que passou contar, inicialmente, com a expertise de jornalistas, em seguida de relações-públicas, depois de profissionais do marketing e da publicidade. Hoje a estatal se vê diante de mais um desafio: transformar sua larga experiência comunicacional nas atividades de social media, capacitando seus profissionais de comunicação para que atuem, cada vez mais, na disputada arena dos produtores de conteúdos em plataformas digitais (digital influencers).
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*DALMO OLIVEIRA é jornalista formado pela UFPB no século passado. Dedica esse artigo a Marcelino Ribeiro e Iara Lordelo (in memorian).
